Navegue rápido pelo artigo
- Quem são as partes
- O objeto
- A natureza da relação
- Valor, moeda e forma de pagamento
- Impostos
- Propriedade intelectual
- Confidencialidade e não concorrência
- Prazo e rescisão
- Lei aplicável e foro
- As cláusulas que costumam vir escondidas
- Um checklist antes de assinar
- O contrato e a contabilidade
- Perguntas frequentes
- Onde a Ethos entra
Quando uma empresa de fora contrata um dev brasileiro como PJ, o contrato costuma chegar pronto, em inglês, com o título de "independent contractor agreement" ou "consulting agreement". A tentação é assinar rápido, porque o modelo parece padrão. Mas algumas cláusulas mexem diretamente no seu imposto no Brasil, no seu risco e no que acontece quando o contrato acabar.
Este texto passa pelas cláusulas que importam, explica o efeito de cada uma e mostra o que pedir para ajustar. A redação jurídica é trabalho de advogado. O que está aqui é o olhar contábil e fiscal sobre o contrato.
Quem são as partes
A primeira cláusula define quem contrata e quem é contratado. É a mais importante para o imposto.
O contratado deve ser a sua empresa. Com a razão social, o CNPJ e o endereço da empresa. Se o contrato for com você, pessoa física, a receita é sua, e não da empresa, e o imposto de renda pode chegar a 27,5% pelo carnê-leão.
O contratante deve ser quem de fato paga. A empresa estrangeira, identificada com o nome, o país e o endereço. Se o pagamento vem de outra entidade, como uma subsidiária ou uma plataforma, o contrato deve refletir isso.
Essa identificação é o que sustenta a exportação de serviço, com PIS, COFINS e ISS fora da conta. Está em Exportação de serviço paga quais impostos?.
O objeto
A descrição do serviço deve ser clara: desenvolvimento de software, manutenção de sistemas, consultoria técnica. Três motivos:
Enquadramento tributário. O objeto do contrato deve bater com o CNAE da empresa e com a descrição na nota fiscal.
Exportação de serviço. Para o ISS, importa onde o resultado do serviço é verificado. Um objeto que deixa claro que o trabalho é usado pelo cliente no exterior ajuda a sustentar a exportação.
Diferença entre prestação de serviço e emprego. Um objeto definido por entregas e projetos se afasta de uma relação de emprego. Um objeto genérico, como "trabalhar para a empresa", se aproxima.
A natureza da relação
Quase todo contrato de contractor tem uma cláusula dizendo que o contratado é independente, não empregado, e responsável pelos próprios impostos e benefícios. Essa cláusula é esperada e reforça a prestação de serviço.
Mas a realidade vale mais que o papel. Se, na prática, você tem horário fixo, chefe direto, exclusividade e não pode recusar tarefas, a cláusula sozinha não impede a discussão sobre vínculo. Está em PJ de dev pode ter mais de um cliente?.
Valor, moeda e forma de pagamento
A moeda. Dólar, euro ou outra. O contrato em moeda estrangeira protege você da desvalorização do real, mas expõe à valorização.
A base do valor. Por hora, mensal ou por projeto. O contrato mensal é o mais comum entre devs.
A periodicidade e o prazo de pagamento. Mensal, quinzenal, contra invoice. Quantos dias depois da invoice o pagamento acontece.
A forma de pagamento. Transferência bancária internacional, plataforma de pagamento ou plataforma de contratação. Isso afeta o custo do câmbio e a comprovação do ingresso de divisas. Está em Receber em dólar na PJ: câmbio e conta.
O reajuste. Se não há previsão, o valor fica igual até você renegociar. Vale prever revisão anual.
As despesas. Quem paga equipamento, software, viagens? Se o contrato diz que você paga, isso precisa estar no valor.
Impostos
Muitos contratos dizem que cada parte é responsável pelos seus impostos. Para você, isso significa que a sua empresa paga os impostos brasileiros e o cliente não retém nada, desde que o formulário fiscal do cliente, como o W-8BEN-E nos Estados Unidos, tenha sido entregue. Está em Formulário W-8BEN-E: o que é e como o dev PJ preenche.
Cuidado com cláusulas que autorizam o cliente a reter impostos do país dele sobre o pagamento. Se aparecerem, vale entender em que situação isso aconteceria.
Propriedade intelectual
Quase todo contrato de desenvolvimento transfere para o cliente a propriedade do código e de tudo que você produzir para ele. Isso é normal. Os pontos a observar:
O que já era seu antes. Bibliotecas, ferramentas e código que você já tinha. O contrato deve excluir ou licenciar, e não transferir, o que é anterior.
O que você cria fora do trabalho. Projetos pessoais, open source, outros clientes. Cláusulas muito amplas podem alcançar tudo o que você produzir durante o contrato.
Open source. Se você usa ou contribui para projetos abertos, vale ver se o contrato permite.
Confidencialidade e não concorrência
Confidencialidade é padrão e razoável.
Não concorrência e não solicitação podem impedir você de trabalhar para concorrentes ou de contratar pessoas do cliente, durante e depois do contrato. Se a cláusula for ampla, pode limitar sua carreira. Vale negociar o alcance e o prazo.
Prazo e rescisão
O prazo. Indeterminado ou com data de término.
O aviso prévio. Quantos dias cada parte precisa avisar para encerrar. Contratos de contractor às vezes permitem encerramento imediato pelo cliente. Um aviso de 30 dias dá tempo para buscar outro cliente.
O pagamento no encerramento. O que acontece com o trabalho já feito e ainda não pago.
Lei aplicável e foro
O contrato costuma escolher a lei do país ou do estado do cliente e os tribunais de lá. Na prática, isso significa que uma disputa seria resolvida fora do Brasil. Para contratos de valor alto, vale entender o que isso implica com um advogado.
As cláusulas que costumam vir escondidas
Alguns pontos aparecem no meio do texto e passam despercebidos:
Horário e disponibilidade. "Estar disponível das 9h às 18h no fuso do cliente" é uma exigência de empregado, não de prestador. Vale negociar para janelas de sobreposição.
Equipamento do cliente. Se o cliente fornece notebook, o contrato deve dizer o que acontece com ele no fim do contrato.
Rastreamento de atividade. Alguns contratos autorizam softwares de monitoramento. Isso também aproxima a relação de emprego.
Multa por rescisão antecipada. Às vezes só para o contratado. Vale buscar equilíbrio.
Cessão do contrato. O cliente pode transferir o contrato para outra empresa do grupo, o que pode mudar o país do pagador e a análise fiscal.
Um checklist antes de assinar
- O contratado é a sua empresa, com CNPJ?
- O contratante é quem paga?
- O objeto descreve o serviço e bate com o CNAE?
- A moeda, o valor, o prazo e a forma de pagamento estão claros?
- Há previsão de reajuste?
- A propriedade intelectual exclui o que já era seu?
- A não concorrência é razoável?
- Há aviso prévio para encerrar?
- O formulário fiscal do cliente foi pedido e entregue?
O contrato e a contabilidade
O contrato é a prova da operação. A contabilidade usa o contrato para:
- Sustentar a exportação de serviço, com o tomador no exterior
- Emitir a nota fiscal com a descrição e o tomador corretos. Está em Como emitir nota fiscal para cliente do exterior
- Registrar a receita no valor e na moeda certos, com a variação cambial
- Responder a uma fiscalização sobre a natureza do serviço
Guarde o contrato assinado, os aditivos e as trocas de e-mail que alterarem condições.
Perguntas frequentes
Preciso traduzir o contrato?
Para a contabilidade no Brasil, em geral não, mas é útil ter uma versão em português para consulta. Para uso em processo ou perante órgãos públicos, pode ser exigida tradução juramentada.
Posso assinar digitalmente?
Pode. Assinatura eletrônica por plataformas reconhecidas é o padrão em contratos internacionais, e vale como prova da operação.
O contrato precisa ser registrado?
Em regra, não. Ele vale entre as partes e serve de prova da operação.
E se o cliente não aceitar contratar a minha empresa?
Contratar como pessoa física tem imposto bem maior no Brasil. Vale insistir, ou avaliar uma plataforma de contratação que aceite a empresa.
Posso usar o mesmo modelo para vários clientes?
Pode ter um modelo seu, mas empresas grandes costumam impor o próprio contrato. O importante é revisar as cláusulas que mexem no imposto e no risco.
O contrato precisa dizer onde eu trabalho?
É útil deixar claro que o serviço é prestado do Brasil e usado pelo cliente no exterior. Isso ajuda na exportação e na análise fiscal do país do cliente.
Onde a Ethos entra
Revisamos o contrato pelo lado contábil e fiscal, confirmamos a exportação e cuidamos da empresa, com nota, câmbio e impostos. Para a redação jurídica, indicamos que você conte com um advogado. Veja como atendemos devs que trabalham para o exterior e tecnologia e desenvolvedores, ou fale conosco.
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