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Migrar a contabilidade de uma empresa que fatura só no Brasil é uma lista de documentos. Migrar a de quem exporta serviço é a mesma lista mais um acervo que quase ninguém pede: câmbio, contrato com o contratante estrangeiro e a memória de como a receita foi separada em cada apuração.
Esse acervo extra é o que sustenta o tratamento tributário da exportação. Sem ele, a empresa fica regular no papel e sem prova do benefício que aplicou.
Este é o roteiro para levantar tudo antes de trocar de escritório.
Antes de avisar o escritório atual
Escolha o novo. Empresa sem cobertura no meio do mês perde prazo, e obrigação fiscal não espera acerto entre escritórios.
Confirme que ele atende quem exporta. Pergunte como trata a segregação de receita e a conciliação de câmbio. Resposta genérica é resposta ruim.
Peça a lista de documentos ao novo escritório, para fazer um pedido só ao antigo.
Baixe o que você mesmo consegue. Muita coisa está em portal ao qual você tem acesso, e o que você já tem não precisa ser pedido.
O bloco societário e cadastral
- Contrato social e todas as alterações
- Cartão CNPJ atualizado
- Inscrição municipal e alvará
- Inscrição estadual, quando houver
- Certificado digital, com a garantia de que ele é seu e você tem a senha
- Procurações eletrônicas ativas, para saber o que revogar
O item 5 trava mais transição do que parece. Certificado emitido em nome do escritório, sem cópia com a empresa, deixa você dependente de quem está saindo.
O bloco fiscal e contábil
- Balanços e balancetes dos últimos exercícios
- Livros contábeis e fiscais
- Declarações entregues, com recibos de transmissão
- Guias pagas e comprovantes
- Notas fiscais emitidas e recebidas
- Parcelamentos em curso, com extrato e demonstrativo
- Situação fiscal nas três esferas, com as certidões
O item 7 é o que dá a fotografia real. Certidão negativa nas três esferas mostra se a empresa está limpa ou se existe pendência que a transição vai herdar.
O bloco de quem exporta
Este é o que diferencia a sua migração.
Contratos de câmbio
Todas as operações do período aberto à fiscalização. É a prova de que o dinheiro veio de fora, e sem ela o tratamento de exportação fica sem lastro.
Faltando alguma, peça segunda via à instituição financeira antes de encerrar a relação com o escritório antigo, porque depois ninguém ajuda a localizar. Está em Contrato de câmbio: o que guardar.
Contratos com os clientes estrangeiros
Com aditivos e renovações. É o documento que descreve o serviço e onde o resultado se verifica, que é o núcleo da caracterização da exportação.
Ordem de compra, proposta aceita e troca de e-mails que formalizaram o acordo entram junto, quando não houver contrato assinado.
Notas fiscais com tomador no exterior
Na forma em que a prefeitura emitiu, com o campo de tomador estrangeiro preenchido. Está em Nota fiscal para cliente do exterior.
A memória da segregação
Como a receita de exportação foi separada da nacional em cada apuração, mês a mês.
É o documento mais negligenciado e o mais útil. Ele mostra se o benefício foi aplicado e permite conferir se houve imposto pago a mais. Está em Contador que tributou errado a receita do exterior.
A conciliação entre nota, câmbio e recebimento
Qual entrada corresponde a qual nota. Reconstruir isso depois é caro, porque valores não batem exatamente: a data do câmbio é diferente da data da nota, e o custo da operação entra no meio.
O tratamento da variação cambial
Como a diferença entre o valor da nota e o valor efetivamente recebido foi registrada. Está em Variação cambial: como contabilizar.
O bloco trabalhista
- Folha de pagamento dos últimos exercícios
- Contratos de trabalho e alterações
- Recolhimentos previdenciários e de FGTS
- Rescisões e verbas pagas
- Pró-labore do período, com os recolhimentos
O item 5 importa duas vezes para quem está no Simples: pela contribuição previdenciária e por ser a variável do Fator R, que decide o anexo aplicável. A conta sai na calculadora de Fator R.
As conferências que ninguém faz
Depois de reunir tudo, cinco checagens que valem o tempo:
A receita de exportação foi segregada em todos os meses? Compare o total das notas emitidas para clientes de fora com o valor informado como receita de exportação nas declarações.
Existe câmbio para cada nota? Nota sem entrada correspondente é pendência: ou o recebimento não veio, ou entrou por fora.
Os contratos cobrem todo o período faturado? Contrato vencido e não renovado enfraquece a caracterização do que foi faturado depois.
O CNAE corresponde ao que o contrato descreve? Divergência entre a atividade declarada e a contratada é o achado mais comum de uma migração bem-feita. Está em CNAE para exportação de serviço.
Houve ISS recolhido em nota de exportação? Pode ser legítimo, quando o resultado se verifica aqui, e precisa de justificativa.
Qualquer resposta negativa é assunto para o primeiro mês com o novo escritório, e não motivo para adiar a troca.
A ordem da transição
- Contratar o novo escritório e alinhar a data de corte
- Comunicar o atual por escrito, respeitando o aviso prévio do contrato
- Solicitar o acervo, com a lista completa
- Receber e conferir antes de encerrar
- Transferir responsabilidade na Receita e refazer as procurações eletrônicas
- Revogar as procurações antigas, o que muita gente esquece
- Registrar pendências em trânsito, como nota emitida com câmbio ainda não liquidado
O item 6 é falha de segurança quando fica para trás. O item 7 é específico de quem exporta e evita que uma operação fique sem dono na conciliação.
Quando migrar
A virada do ano é a mais organizada. Depois do fechamento mensal é a segunda melhor.
E qualquer momento serve quando o motivo é grave. Empresa que descobriu que nunca segregou a receita de exportação está perdendo dinheiro todo mês, e esperar dezembro custa mais do que a bagunça de migrar em março.
O roteiro geral de troca está em trocar de contador, e a versão detalhada para exportação em Como trocar de contador exportando serviço.
O que fazer com o que faltar
Nenhuma migração reúne cem por cento do acervo. O que separa a transição tranquila da complicada é o que se faz com as lacunas.
Contrato de câmbio ausente. A instituição financeira mantém registro das operações e fornece segunda via. Comece por ela, e faça o pedido enquanto a relação com o escritório antigo ainda está aberta, porque ele sabe por onde cada entrada passou.
Contrato com o cliente estrangeiro nunca assinado. Reúna o que formalizou o acordo: proposta aceita, ordem de compra, troca de e-mails. Sustenta menos que um contrato e sustenta. Daqui para frente, formalize.
Memória de segregação inexistente. Reconstrua a partir das declarações entregues e das notas emitidas. Dá trabalho e é possível, e o resultado mostra se houve imposto pago a mais.
Nota emitida sem o campo de tomador no exterior. Confira se a prefeitura permite substituição ou carta de correção. Não permitindo, o contrato e o câmbio passam a carregar sozinhos a caracterização.
Período inteiro sem documentação. Priorize os meses de maior faturamento. Reconstruir tudo raramente compensa, e reconstruir o que concentra valor quase sempre compensa.
A regra prática: lacuna documental não impede a troca. Ela define a primeira tarefa do escritório novo.
Perguntas frequentes
O escritório antigo é obrigado a entregar tudo?
A documentação da empresa é da empresa, e a devolução é obrigação dele, inclusive com honorário em aberto.
E se ele não entregar?
Peça formalmente, com prazo. Persistindo, cabe representação ao conselho de classe e as medidas civis próprias.
Quanto tempo leva reunir esse material?
O bloco padrão sai rápido. O bloco de câmbio é o que costuma demorar, sobretudo quando as operações passaram por instituições diferentes.
Preciso de todos os anos?
Concentre no período ainda aberto à fiscalização. O que for mais antigo vale guardar, e não é prioridade da migração.
Posso migrar com processo fiscal em andamento?
Pode. Leve o processo completo, com as intimações e as respostas apresentadas.
Perdi contratos de câmbio. Isso inviabiliza a troca?
Não. Peça segunda via à instituição financeira, que mantém registro das operações.
O novo escritório refaz as apurações antigas?
Só se houver erro a corrigir. O padrão é conferir e, achando divergência, avaliar a retificação.
Preciso avisar meus clientes estrangeiros?
Não. A relação com eles não muda, e os dados de faturamento seguem os mesmos.
Trocar no meio do trimestre atrapalha?
Não, desde que a data de corte esteja clara e o fechamento do período fique definido entre os dois escritórios.
O certificado digital fica com quem?
Com a empresa. Se ele foi emitido pelo escritório e você não tem a senha, resolva isso antes de encerrar.
Vale trocar por causa de honorário mais barato?
Para quem exporta, raramente. A diferença de honorário costuma ser menor que o imposto pago a mais por uma apuração sem segregação.
Preciso entregar tudo isso de uma vez?
Não. O que o novo escritório precisa para assumir o mês corrente é o bloco cadastral e o acesso aos portais. O acervo histórico pode vir em seguida, e é ele que sustenta a conferência do período anterior.
Como sei se o acervo que recebi está completo?
Confira pelo que existe fora do escritório: as declarações constam no portal da Receita, as notas na prefeitura e as operações de câmbio na instituição financeira. O que aparece nessas fontes e não veio na entrega é o que falta pedir.
Onde a Ethos entra
Conduzimos a migração levantando o acervo de câmbio e a memória de segregação junto com o resto, porque é esse material que sustenta o benefício da exportação quando a Receita pergunta. Veja como atendemos serviços para o exterior ou fale com a gente.
O ajuste que faz uma empresa de serviço pagar metade do imposto
Duas clínicas faturam os mesmos R$ 30 mil por mês. Uma paga R$ 2.580 de imposto, a outra paga R$ 5.025. A diferença tem nome, tem fórmula, e dá para conferir em cinco minutos.
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