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Trocar a contabilidade de uma indústria é mais delicado que trocar a de uma prestadora de serviço. Existe saldo de estoque que precisa atravessar íntegro, crédito de ICMS acumulado, Bloco K com histórico de produção e obrigações estaduais com prazo próprio.
Nada disso se reconstrói depois com facilidade. Por isso a ordem importa.
A ordem que funciona
1. Contrate o novo escritório antes de avisar o atual
Obrigação estadual não espera. SPED Fiscal, apuração de ICMS e recolhimento de substituição tributária têm prazos próprios, e ficar sem responsável em algum momento gera multa.
2. Escolha o momento do calendário
O ideal é virar no início de um mês, com o anterior fechado, incluindo a escrituração fiscal.
Dois períodos merecem atenção: perto do fechamento do inventário anual, e perto da entrega das obrigações estaduais mais pesadas.
3. Defina a competência de virada por escrito
A responsabilidade muda por competência. O comum é o escritório antigo fechar o mês corrente, incluindo SPED e apuração, e o novo começar no seguinte.
4. Trate o estoque como prioridade
Este é o item que diferencia indústria de qualquer outro segmento.
O saldo de estoque precisa atravessar a mudança com valor e quantidade corretos, porque ele é a base de:
- O Bloco K da competência seguinte
- O inventário anual
- O custo de produção
- A apuração do resultado
Estoque que não bate na virada é problema que aparece no inventário e que o fisco cruza. Levante o saldo antes de encerrar, e confira contra a contagem física.
5. Levante o crédito de ICMS acumulado
Crédito de ICMS é dinheiro. Ele precisa ser transferido com o histórico completo, competência a competência, com a base que o sustenta.
Crédito não levantado na migração costuma ser crédito perdido, porque reconstruir a origem depois de meses é trabalhoso.
6. Peça a documentação por escrito
A lista está na seção seguinte.
7. Assine o termo de transferência de responsabilidade técnica
Ele define a partir de qual competência a responsabilidade muda, e existe para o caso de aparecer autuação de período antigo.
8. Troque acessos e procurações
Certificado digital, acesso à Sefaz, senha da prefeitura, código do Simples, procuração eletrônica no e-CAC, acesso ao eSocial e ao FGTS Digital.
O acesso à Sefaz é o mais crítico em indústria, porque é por ele que se emite nota e se apura o ICMS.
O que pedir ao escritório antigo
Fiscal:
- Arquivos do SPED Fiscal de todas as competências
- Bloco K, com o histórico de produção e estoque
- Livros de entrada, saída e apuração de ICMS e IPI
- Notas fiscais emitidas e recebidas
- Demonstrativo de crédito de ICMS acumulado
- Guias recolhidas, incluindo ICMS-ST e DIFAL
- Declarações estaduais entregues
Contábil:
- Balanço patrimonial e demonstração de resultado
- Livro diário e livro razão
- Balancetes mensais
- Inventário dos últimos exercícios
- Memória de cálculo do custo de produção
Trabalhista:
- Cadastro completo dos funcionários
- Histórico de férias e décimo terceiro
- Eventos do eSocial transmitidos
- Exames ocupacionais e documentação de saúde e segurança
- Convenção coletiva aplicável
- FGTS recolhido
Societário e fiscal geral:
- Contrato social e alterações
- Relatório de situação fiscal, com débitos federais, estaduais e municipais
- Parcelamentos em andamento
O item de saúde e segurança do trabalho tem peso especial em indústria, porque ele alimenta o RAT e o FAP.
O que costuma dar errado
O estoque não bate. É o problema número um. Ele aparece no inventário e o fisco cruza com compras, vendas e produção.
O crédito de ICMS se perde. Sem o demonstrativo de origem, o escritório novo não consegue sustentar o saldo.
O Bloco K quebra. Sem o histórico, a escrituração da competência seguinte fica sem base.
Aparece débito estadual antigo. ICMS-ST não recolhido ou DIFAL esquecido continua sendo da empresa.
O RAT muda sem explicação. Informação de saúde e segurança mal migrada afeta a alíquota.
O primeiro fechamento: o que conferir
- O saldo de estoque inicial bate com o final do escritório anterior
- O crédito de ICMS foi transportado integralmente
- O anexo aplicado, se a empresa está no Simples, é o Anexo II para a receita industrial
- A segregação entre industrialização e revenda, se a empresa faz as duas coisas
- A substituição tributária foi apurada corretamente
- O Bloco K foi escriturado com base no histórico correto
- A folha migrou completa, com o RAT e o FAP corretos
Sinais de que a troca faz sentido
- Crédito de ICMS que ninguém aproveita ou explica
- Estoque contábil que nunca bate com o físico
- Custo de produção estimado no olho, sem memória de cálculo
- Bloco K entregue com dado genérico
- Ninguém nunca comparou Simples, Presumido e Real com os seus números
- Você descobre pendência estadual pelo cliente, e não pelo contador
Os três primeiros são os mais comuns e estão detalhados em Sinais de que a contabilidade da indústria está errada.
O que a troca não resolve
Débito antigo continua da empresa. Inclusive ICMS-ST e diferencial de alíquota de competências anteriores.
Estoque divergente continua divergente. O escritório novo levanta e propõe a regularização, mas a diferença existe.
Passivo trabalhista continua. Erro de folha e de saúde ocupacional segue existindo.
Licença ambiental vencida não é assunto contábil. Continua exigindo solução própria.
O que perguntar antes de assinar com o novo escritório
Use a troca para resolver o que motivou a saída:
- Como vocês apuram o crédito de ICMS? Energia, ativo imobilizado e material intermediário aparecem na resposta?
- Como fazem o Bloco K? Com apontamento de produção real ou com dado genérico?
- Vocês montam memória de cálculo do custo de produção?
- Como conferem a substituição tributária por produto?
- Revisam o NCM do cadastro de produtos?
- Conferem o RAT e o FAP?
- Quem levanta estoque e situação fiscal antes de assumir?
As perguntas 1, 3 e 4 são as que mais separam um escritório do outro em indústria. Escritório que responde com naturalidade lida com isso; escritório que hesita provavelmente trata a indústria como se fosse comércio.
Perguntas frequentes
O escritório novo consegue ver o histórico sozinho?
Com as procurações, ele acessa o que foi transmitido aos sistemas oficiais. O que não aparece por lá é a escrituração contábil, a memória de cálculo do custo e o demonstrativo de origem do crédito de ICMS.
Preciso avisar a Sefaz?
O que muda são os acessos e as procurações. Não existe comunicação específica de troca de contador.
Posso trocar com parcelamento em andamento?
Pode. O parcelamento é da empresa e continua valendo. O escritório novo precisa receber o demonstrativo das parcelas.
E se o escritório antigo não entregar os arquivos do SPED?
Os arquivos transmitidos ficam disponíveis nos sistemas oficiais com a devida procuração. O que não se recupera por lá é a memória de cálculo e a escrituração contábil.
Posso trocar no meio do ano fiscal?
Pode. O que vale evitar é virar perto do fechamento do inventário anual, quando a apuração de estoque exige continuidade de informação entre os dois responsáveis.
Quanto tempo leva?
Depende de quanto está organizado. O que costuma demorar é o levantamento de estoque e de crédito de ICMS.
E se a indústria estiver com licença ambiental em renovação?
Isso não afeta a troca de contabilidade, porque são processos independentes. O que vale é o escritório novo receber a documentação ambiental, já que as condicionantes geram custos que precisam de tratamento contábil.
Vou pagar dois honorários no mês da virada?
Depende de como a competência foi dividida. Definir a data de corte por escrito evita cobrança dobrada.
Meu crédito de ICMS pode se perder na troca?
Pode, se não houver demonstrativo de origem. O saldo sem histórico que o sustente é frágil, e reconstruir a partir de notas antigas é trabalho caro. É o item que mais vale exigir antes de encerrar.
Preciso fazer inventário na virada?
Não é obrigatório fora da data legal, e vale muito a pena. Contagem física na virada é o que garante que o saldo transferido é real.
O que faço se o estoque não bater na virada?
Levante a diferença, identifique a origem e documente a regularização. Diferença conhecida e justificada é um problema com solução. Diferença descoberta pelo fisco no cruzamento é outro tipo de problema, tratado em Inventário anual e o que o fisco cruza.
Meus clientes precisam saber?
Não. A empresa continua a mesma, e o que não pode mudar é a emissão de nota.
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Assumimos levantando estoque, crédito de ICMS e situação fiscal antes da virada, porque é o que não se reconstrói depois. Veja como atendemos indústrias ou fale com a gente.
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